Crise na Venezuela aumenta volatilidade, mas não muda fundamentos do petróleo no Brasil
“O impacto predominante é geopolítico, elevando prêmios de risco e fortalecendo ativos defensivos, como dólar e ouro, mas sem grandes alterações no balanço global de oferta e demanda.”
Daniel Nogueira
Os desdobramentos da crise geopolítica envolvendo a Venezuela e a atuação mais cautelosa da OPEP+ mantêm o mercado de petróleo sob atenção em 2026. Apesar do aumento das incertezas, os efeitos práticos sobre a oferta global seguem limitados, enquanto os impactos mais relevantes têm sido sentidos nas ações de empresas do setor, especialmente em mercados emergentes, como o Brasil.
A avaliação é do Head de Alocação da InvestSmart XP, Daniel Nogueira, que analisou o cenário recente e seus reflexos para a indústria de petróleo e gás. Segundo ele, o mercado iniciou o ano “sob um grande evento de incerteza geopolítica”, mas com reação contida nos preços da commodity.
“O barril reagiu com volatilidade limitada, mas os impactos setoriais têm sido assimétricos, com penalização maior sobre as companhias listadas do que sobre o preço do petróleo em si.”
Venezuela volta ao centro do debate geopolítico
A prisão de Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos e a sinalização de Washington sobre a intenção de reorganizar o setor energético venezuelano recolocaram o país no centro do tabuleiro global do petróleo. O discurso americano, conforme Nogueira, aponta para o objetivo de garantir acesso estratégico às maiores reservas comprovadas do mundo e reconstruir uma indústria hoje muito abaixo do potencial histórico.
Apesar disso, o especialista pondera que o risco imediato para a oferta global é reduzido. “O consenso entre analistas é que a Venezuela não representa um choque imediato de oferta”, destacou. Atualmente, a produção do país gira em torno de 1 milhão de barris por dia, menos de 1% da oferta mundial.
Além disso, qualquer expansão relevante exigiria anos de investimentos, reconstrução logística e estabilidade institucional. “Estamos falando de um esforço estimado em mais de US$ 100 bilhões.”
No curto prazo, segundo Nogueira, o principal efeito é psicológico. “O impacto predominante é geopolítico, elevando prêmios de risco e fortalecendo ativos defensivos, como dólar e ouro, mas sem grandes alterações no balanço global de oferta e demanda.”
OPEP+ mantém disciplina para conter excesso de oferta
Nesse contexto, a decisão da OPEP+ de pausar novos aumentos de oferta no primeiro trimestre surge como um contrapeso ao ruído político. Para Daniel Nogueira, a leitura do cartel é pragmática.
“O risco de excesso de petróleo no mercado, diante de uma economia global crescendo de forma desigual, é mais relevante do que o risco de escassez.” De acordo com ele, a OPEP+ segue “ancorando o piso do petróleo”, o que limita quedas mais abruptas do Brent, mas também restringe altas expressivas sem uma aceleração clara da demanda global.
Impactos para o Brasil e empresas do setor
Para o mercado brasileiro, o cenário é considerado mais favorável do que a reação inicial das ações sugere. No caso da Petrobras, Daniel Nogueira avalia que a recente queda dos papéis está mais ligada à aversão a risco global e ao fluxo de capital do que a mudanças nos fundamentos.
“A companhia segue exposta majoritariamente ao pré-sal, com lifting costs baixos, alta geração de caixa e produção pouco sensível a ruídos geopolíticos fora do Atlântico Sul.” Ele acrescenta que uma eventual normalização da produção venezuelana afetaria mais petróleos pesados e descontados, como os da Faixa do Orinoco, do que o óleo brasileiro.
Entre as empresas independentes, como PRIO e Brava Energia, o movimento negativo também ocorreu no curto prazo, mas sem alteração estrutural de tese. “O mercado penalizou o setor como um bloco, apesar de modelos de negócio focados em eficiência operacional, revitalização de campos maduros e disciplina de capital.”
Volatilidade no curto prazo, tese preservada no médio prazo
Na avaliação do Head de Alocação da InvestSmart XP, o petróleo atravessa um ciclo mais marcado por manchetes do que por escassez física. “A Venezuela é relevante como ativo geopolítico dos EUA, mas não como fornecedor marginal no curto prazo.”
Ele ressalta ainda que a OPEP+ segue administrando a oferta para evitar colapsos de preços, enquanto produtores fora do cartel, como Brasil e Estados Unidos, continuam ganhando espaço de forma estrutural.
Para o investidor em empresas brasileiras de óleo e gás, o cenário aponta para volatilidade elevada no curto prazo, sustentação de fundamentos no médio prazo e uma assimetria positiva caso o petróleo se mantenha em patamares confortáveis.
“Em resumo, o noticiário da Venezuela adiciona ruído, mas não altera o eixo central da tese do setor no Brasil. Para quem olha além do curto prazo, o cenário parece mais um teste de estômago do que uma mudança estrutural de fundamentos”, concluiu.









